O feminino nos arcanos maiores

O feminino nos arcanos maiores do Tarô - Luiz Claudio Moniz

O estudo da psicologia feminina constitui-se num tema que além de extremamente rico é de uma complexidade ímpar. Muito já se escreveu sobre o assunto e dentre as obras existentes, duas são particularmente fascinantes: "As Deusas e a Mulher", de Jean Shinoda Bolen; e "A Deusa Interior", de Jennifer Barker Woolger e Roger J. Woolger.

Nesses dois trabalhos os autores relacionam as deusas olímpicas com tipos básicos, ou melhor, arquétipos do feminino, que um dia, "in illo tempore", pertenceram a uma só divindade: A Grande Mãe. Com as sucessivas invasões dos povos indo-europeus, e os hiéros gámos (uniões sagradas) entre seus deuses e a divindade suprema do matriarcado, surgiu o que pode ser chamado de departamentalização do feminino.

Os atributos da Grande Mãe foram, aos poucos, sendo distribuídos entre várias deusas, oriundas desses acasalamentos. A conseqüência, como não poderia deixar de ser, foi o enfraquecimento gradual da deusa, pois a tática usada pelo patriarcado tinha como objetivo "dividir (a mente e o elemento Ar, tidos como masculinos) para conquistar".

Hera, o poder, está associada às palavras-chave imperatriz, regente, esposa, tradição, casamento, companheirismo, moralidade e matriarca.

Atena, a civilização, se relaciona com educação, cidade, cultura, carreira, profissão, competição e intelectualidade, sendo também a filha obsequiosa ou rebelde.

Deméter, a mãe, por sua vez é o corpo como receptáculo, a senhora das plantas, a mãe-terra, tendo também como palavras-chave menstruação, gravidez, geração, amamentação, acalento e fertilidade.

Ártemis, a natureza, é a amazona, a xamanista, a caçadora, a amante dos ermos, a senhora das feras e a aventureira.

Perséfone, o mundo avernal, assume os atributos da guia interior, ou seja, aquela que possui clarividência, poder psíquico e de cura, visões, sonhos, mediunidade, pureza, além da regência sobre o oculto, a morte e a transformação.

E finalmente Afrodite, o eros, que carrega consigo a sexualidade, a sensualidade, o romance, a beleza e a paixão. Para ela o corpo é sagrado, sendo além da hetaira (a concubina), a patrocinadora das artes e a rainha dos salões.

Esta relação pode e deve ser aplicada ao Tarô, no qual estão contidos tais arquétipos. Em se fazendo isto, o entendimento das referidas cartas torna-se muito fácil, proporcionando ao profissional ou estudante uma abertura de horizontes sem precedentes.

 A Imperatriz, por exemplo, abrange em si as características de três deusas, sendo com isso a que mais se aproxima do arquétipo Grande Mãe. No "Tarô Mitológico", de Liz Greene e Juliet Sharman-Burke, ela é Deméter, a terra cultivada. Sendo assim, aparece grávida e colhendo espigas maduras de trigo.

Waite, no seu polêmico, porém, brilhante baralho, associa o Arcano III à deusa latina Vênus (que possui os mesmos atributos de Afrodite) no qual a mesma se encontra confortavelmente esparramada em grandes almofadas, em meio a uma luxuriante paisagem (o glifo do planeta Vênus está gravado no escudo a seu lado, atestando tal relação). A Imperatriz, contudo, também traz o arquétipo esposa, ou seja, a deusa Hera, já que é a companheira do Imperador. A Sacerdotisa, A Lua e A Estrela estão relacionadas à Perséfone, a senhora das profundezas (no Arcano II do "Tarô Mitológico", a esposa de Plutão desce as escadas do mundo avernal), que além de conhecer o lado sombrio e oculto do ser, permanece pura tal qual o Arcano XVII.

A chave da associação entre A Estrela e Perséfone está no fato dessa divindade atuar como ponte entre o Hades e a Terra, pois é a semente que morre e renasce. Com isso, a deusa incute nos homens a esperança e a fé na continuidade, através das sucessivas reencarnações representadas pelos ciclos da vegetação (essa idéia tornou-se o tema central da religião d'Os Mistérios de Elêusis, que por sua vez acabou por originar a teoria reencarnacionista). A Justiça é sem sombra de dúvidas Palas Atena, a deusa racional, nascida das meninges de Zeus (a espada e a balança, símbolos da mente, confirmam com segurança esta associação), como pode ser visto, mais uma vez, no Tarô Mitológico. A filha do senhor do Olimpo é a divindade das pólis, atuando como mediadora e estrategista. Por fim, A Força evoca Ártemis, a senhora das feras. Crowley, no seu Tarô de Thoth representa este arquétipo através de uma figura feminina (a mulher escarlate do Apocalipse para alguns) cavalgando um leão que possui inúmeras faces e uma serpente como cauda. A referida personagem também segura um cálice (o Graal) do qual saem energias tanto prolíficas quanto aniquiladoras.

Provavelmente o grande mago se inspirou numa miniatura hindu do século XVII ou XVIII, intitulada "Deusa sobre Leão Cósmico", já que os mesmos símbolos estão na referida carta. Em sua grande maioria, os Tarôs apresentam no Arcano XI (ou VIII), uma jovem dominando um leão. O controle sobre o animal, o lado instintivo do ser, representa a antiga característica da Grande Mãe que está associado tanto ao ato de criar quanto ao ato de destruir. Esta lâmina, portanto, nos conecta também a outras deusas lunares com os mesmos atributos da irmã de Apolo, tais como Lilith, Káli e Diana, só para citar algumas.

Não se pode, no entanto, deixar de mencionar A Temperança. Esse arquétipo, representado por um anjo na maioria dos baralhos, surge nos Tarôs de Crowley e da Golden Dawn como uma mulher. Tal fato estaria ligado à letra hebraica associada ao Arcano: Samekh, que significa esteio, ou seja, proteção, útero (que no Tarô de Thoth é o caldeirão no qual a figura lança o fogo e a água, ou ainda, o espermatozóide e o óvulo). Essa idéia, portanto, nos atira mais uma vez em direção à Grande Mãe. O lado Ártemis também se encontra na lâmina, pois à mesma foi relacionado o signo de Sagitário (Ártemis é a deusa da caça, portanto exímia arqueira). Toda mulher possui esses arquétipos inseridos em sua psique, sendo que um deles (ou mais de um) pode estar evidenciado, ao mesmo tempo em que outro (ou outros) está reprimido. Enfim, as situações são inúmeras, dependendo da pessoa. Cada um desses modelos-padrão pode também se constelar à medida que a mesma evolui ao longo da vida.

A mulher, portanto, deve procurar se conscientizar do arquétipo ou arquétipos que são vivenciados a nível exterior, e os que possam estar inconscientes ou mal resolvidos, afim de uma maior integração consigo mesma e com a própria vida. O mesmo vale para o homem no que diz respeito à companheira ideal, ou melhor, a anima. O mistério XVIII, ou a Lua é o símbolo máximo do inconsciente. O mundo da Lua é o mundo da noite, da escuridão, do oculto. Só tem coragem para enfrentar este mundo o iniciado, aquele que já dominou os mistérios, aquele que já descobriu sua própria luz. Não é por acaso que 18 se reduz a 9, e o arcano 9 é o Eremita , o sábio que guia e ilumina o seu caminho com a luz interior e vive bem na noite, vive bem na escuridão. Os que tentam entrar no mundo da Lua sem possuir a orientação da própria luz, acabam por lá ficando, vítimas do próprio inconsciente. São dominados por medos, fantasmas, assombrações, alucinações. Em decorrência, surge a depressão, a angústia ou a falta de contato com a realidade. As imagens deste arcano sugerem um mundo primitivo: aqui não encontramos nenhuma figura humana; apenas seres do mar, escorpiões, caranguejos, lobos e cães uivando, o que simboliza a predominância do mundo instintivo, irracional, intuitivo. O momento deste arcano é ideal para cuidarmos dos assuntos da alma, para ingressarmos em experiências transcendentais, para desenvolvermos nossa intuição. A Lua é pura magia, inspiração, fantasia.

A LUA - Imagem Arquetípica do Umbral (Inconsciente) - quando mergulhamos em direção à luz, não devemos esquecer das sombras que vão se delineando aos poucos atrás de nós. Os místicos chamam o processo de mergulhar nas sombras, de "Noite Negra da Alma". Toda busca da consciência requer intimidade com nosso inconsciente. Se o negamos, as sombras parecerão sempre maiores. Eis a necessidade de enfrentarmos nossos medos mais íntimos. Pois é o medo, o último estágio para se integrar em consciência consigo próprio. O mundo das aparências deve ser finalmente vencido. Lembremos que a Lua recebe a luz do Sol. As armadilhas estão sempre armadas. Caímos ou não nelas. Depende de "sua capacidade de enxergar no escuro". Quando acostumamos a vista à escuridão, enxergamos melhor as coisas. Se ficarmos apenas a ver a luz, ficaremos realmente cegos. Então, tudo se torna armadilha e "as criaturas da noite se preparam para banquetear-se" !

A SACERDOTISA - Imagem Arquetípica da Anima (Alma) - eis a alma das coisas. O templo interior que nos resguarda do tumultuado mundo de maya. Está aqui presente a voz interior. Um chamado para que olhemos para dentro de nós mesmos. Reintegração consigo próprio. Assimilação. E muita receptividade pra isso rolar. Mas, todo processo é passivo, contrário ao que foi estabelecido no Arcano 1. Tudo é pura emoção. E muita intuição acompanha todo estágio. A Anima é a contraparte feminina do homem, psiquicamente falando. O ato de cuidar e de envolver. Estamos presos a algo que nos condiciona. E o propósito do estágio também é lembrar nosso grau de dependência das coisas.

A IMPERATRIZ - Imagem Arquetípica da Mater Mundi (Mãe do Mundo) - toda mitologia traz a ideia central em suas cosmogonias, da criação do Universo a partir de uma Grande Mãe. Essa ideia se incube de simbolizar o ato gerativo. Gerar, expressar, manifestar a natureza das coisas. Aqui começa um processo do amor, ainda que distante de sua proposta real. A lâmina nos coloca frente a frente com nossa capacidade de dar e oferecer prazer. É o progresso da substância universal. O ciclo fértil de nossa alma.

SS Martinelli

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